terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Eternamente

Olho por este túnel e me recordo como se fosse ontem. Berço esplêndido, e todo o seu mar de graça. Nutrido com esse amor sem fim que me deste desde o primeiro colo, hoje eu sou esse cara com barba na cara, que tanto já viveu e aprendeu com as mazelas da vida, e que tantas vezes quis tanto, tanto... tanto que, por vezes, esquecia do tamanho das proprias pernas e caía. Mas não importa qual era a queda, você tava sempre ali, pronta com esse amor que inunda o meu universo. Sempre.

Hoje podia ser qualquer dia. Mas não foi. Sorrindo de um jeito leve, você me contou que conseguia, aos poucos, entrar no clima do natal, enfim. Conversou comigo no café da manhã, se queixando de incômodos com coisas de família, mas não... nada tirava aquela leveza nem aquele sorriso. E com ele você me deu o meu presente de natal antecipado, seguido por um enorme abraço. Dejà vú. Mal sabia você que esse já era o maior presente que você podia me dar.

Hoje podia ser qualquer dia. Mas não foi.
Amanhã é dia de papai noel, mas é pra você que eu escrevo este texto.
Obrigado por ser quem és.

Te amo, eternamente.

sexta-feira, 27 de junho de 2008





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CONTARDO CALLIGARIS


Amores silenciosos

A gente se declara apaixonado porque está apaixonado ou pelo prazer de se apaixonar?


FAZER E RECEBER declarações de amor é quase sempre prazeroso.
O mesmo vale, aliás, para todos os sentimentos: mesmo quando dizemos a alguém, olho no olho, "Eu te odeio", o medo da brutalidade de nossas palavras não exclui uma forma selvagem de prazer.
De fato, há um prazer na própria intensidade dos sentimentos; por isso, desconfio um pouco das palavras com as quais os manifestamos.
Tomando o exemplo do amor, nunca sei se a gente se declara apaixonado porque, de fato, ama ou, então, diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar.

Simplificando, há duas grandes categorias de expressões: constatativas e performativas.
Se digo "Está chovendo", a frase pode ser verdadeira se estamos num dia de chuva ou falsa se faz sol; de qualquer forma, mentindo ou não, é uma frase que descreve, constata um fato que não depende dela.
Se digo "Eu declaro a guerra", minha declaração será legítima se eu for imperador ou será um capricho da imaginação se eu for simples cidadão; de qualquer forma, capricho ou não, é uma frase que não constata, mas produz (ou quer produzir) um fato. Se eu tiver a autoridade necessária, a guerra estará declarada porque eu disse que declarei a guerra. Minha "performance" discursiva é o próprio acontecimento do qual se trata (a declaração de guerra).

Pois bem, nunca sei se as declarações de amor são constatativas ("Digo que amo porque constato que amo") ou performativas ("Aca- bo amando à força de dizer que amo"). E isso se aplica à maioria dos sentimentos.

Recentemente, uma jovem, por quem tenho estima e carinho, confiava-me sua dor pela separação que ela estava vivendo. Ao escutá-la, eu pensava que expressar seus sentimentos devia ser, para ela, um alívio, mas que, de uma certa forma, seria melhor se ela não falasse. Por quê? Justamente, era como se a falta do namorado (de quem ela tinha se separado por várias e boas razões), a sensação de perda etc. fossem intensificadas por suas palavras, e talvez mais que intensificadas: produzidas.
É uma experiência comum: externamos nossos sentimentos para vivê-los mais intensamente - para encontrar as lágrimas que, sem isso, não jorrariam ou a alegria que talvez, sem isso, fosse menor. Nada contra: sou a favor da intensidade das experiências, mesmo das dolorosas. Mas há dois problemas.

O primeiro é que o entusiasmo com o qual expressamos nossos sentimentos pode simplificá-los. Ao declarar meu amor, por exemplo, esqueço conflitos e nuances. No entusiasmo do "te amo", deixo de lado complementos incômodos ("Te amo, assim como amo outras e outros" ou "Te amo, aqui, agora, só sob este céu") e adversativas que atrapalhariam a declaração com o peso do passado ou a urgência de sonhos nos quais o amor que declaro não se enquadra.
O segundo problema é que nossa verborragia amorosa atropela o outro. A complexidade de seus sentimentos se perde na simplificação dos nossos, e sua resposta ("Também te amo"), de repente, não vale mais nada ("Eu disse primeiro").
Por isso, no fundo, meu ideal de relação amorosa é silencioso, contido, pudico.

Para contrabalançar os romances e filmes em que o amor triunfa ao ser dito e redito, como um performativo que inventa e força o sentimento, sugiro dois extraordinários romances breves, de Alessandro Baricco, o escritor italiano que estará na Festa Literária Internacional de Parati, na próxima semana: "Seda" e "Sem Sangue" (ambos Companhia das Letras).
Nos dois, a intensidade do amor se impõe com uma extrema economia de palavras ("Sem Sangue") ou sem palavra nenhuma ("Seda"). Nos dois, o silêncio permite que o amor vingue -apesar de ele não poder ser dito ou talvez por isso mesmo.
No caso de "Seda": te amo em silêncio porque te encontro ao limite extremo de uma viagem ao fim do mundo, indissociavelmente ligada a um outro, e nem sei falar tua língua.
Você me ama em silêncio porque sou outro: uma aparição efêmera, uma ave migrante.
No caso de "Sem Sangue": te amo, e não há como falar disso porque te dei e te tirei a vida. E você me ama pelas mesmas razões pelas quais poderia e deveria querer me matar (os leitores entenderão).

Nos dois romances, a ausência da fala amorosa acaba sendo um presente que os amantes se fazem reciprocamente, uma forma extrema (e freqüentemente perdida) de respeito pela complexidade de nossos sentimentos e dos sentimentos do outro que amamos.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Naquela estação, logo ali...

Peguei um trem que ia subindo lá, bem lá por trás do monte. Saí dali pegando carona nas asas de um avião de papel. ZUM! Saltei do avião, e quando já começava a queda livre, me descobri gavião e, agora, eu podia voar. Voei, voei muito, até cansar e cair. Quando dei por mim, já era um macaco que pulava feito doido de galho em galho, coçando a barriga e a cabeça. Ê, bangunça! De uma árvore pra outra errei um galho, caí no chão, e... lá estava eu, sapo cururu, na beira do rio. Paisagem bacana aquela! Tentando comer umas moscas, escorreguei no rio, e já era um peixe vivo e sabia nadar. Chuá, chuá, quanta coisa legal tinha ali! De repente fui capturado por uma rede, que me jogou longe, bem looonge, e de frente a um espelho caiu em pé um moço que, no seu reflexo, num era moço, era criança.

Imaginação, pra que te quero!

:)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

resoluções para os 365 (eternos) dias

Andava distraído em seus próprios passos, lentos e tortos. Quando já quase voava - e talvez ele quisesse mesmo voar, ainda que sem asas - pisou num fio no chão e levou um choque. Desconectado, sentiu melhor a brisa na janela, parado por alguns instantes.

Onde estava? O que aconteceu?

Respiração perturbada, estalos na cabeça, descompassos de coração. Olhos fechados, suor frio e ele se percebe tremendo, mas não... dessa vez, no fundo, ele não tem muito medo. Se arrepia por inteiro, e acha graça, ri bobo.

Solto dessa tomada cotidiana, já tão velha e desgastada, ele descobre que sua energia, na verdade, é muito maior do que pensava e já não cabe mais em tão pequenina condução.

Ele, agora, precisa de uma outra - viva, real, orgânica.
E, mais do que nunca, com duas entradas - para os seus infernos e céus.
Sempre juntos, nunca separados.
Num só pulso, numa só vida.

365 ad infinitum...