segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Circula de cima abaixo
de cima abaixo
de cima abaixo
Tudo que respira e é
Tudo que se chama fé
Mesmo que com ré na minha marcha
na minha marcha
eu vou

Circula de cima abaixo
de cima abaixo
de cima abaixo
a metamorfose que sou
flui fly flew and flown
seja esse meu dom
de cór, de cor,
de cór, de cor e som

(primeira parceria com Rui Aragão, apenas um trechinho... em breve posto a música)

domingo, 8 de agosto de 2010

Re-ligar

Hoje o mar secou
Deixou só areia quente, seca e sem cor
Cai nela a minha gota, o meu traço
Meu eterno descompasso

Hoje o mar secou
Deixou pra mim só o chão
Cai nele a minha sombra, minha dor
Meu eterno amor

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Mas agora vou desligar esse rádio
Lá embaixo tem batucada e eu já tô ouvindo...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

DO NÃO ADIANTE

Pisa, berra e canta o teu próprio não
berra
berra
berra

(...)

Depois abre, cultiva e dele colhe o grão

Pega, reúne e lança a tua porção

Agora presente, te sintas são e vive porra!!!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

EPITELIAL

Frágil tecido que vibra no ar
Se move no espaço, presente em tocar
Aponta, fecha, abre a roda e descobre
Nem fora, nem dentro, é nobre

Forte tecido com fome que encosta e come
Marca, se marca e faz seu nome
Tato contato é o que dá o barato
Nesse caminho, um novo contrato

abismo para fortaleza

Entrou por todos os lados
Fagulha acesa em cada célula
Lá, onde nasce o impulso
Com a boca, pra comer o universo
Já aqui, longe do proibido
Faca fincada no peito
Amor ao avesso

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nota: versos soltos, sem formato nem intenção poética

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Eternamente

Olho por este túnel e me recordo como se fosse ontem. Berço esplêndido, e todo o seu mar de graça. Nutrido com esse amor sem fim que me deste desde o primeiro colo, hoje eu sou esse cara com barba na cara, que tanto já viveu e aprendeu com as mazelas da vida, e que tantas vezes quis tanto, tanto... tanto que, por vezes, esquecia do tamanho das proprias pernas e caía. Mas não importa qual era a queda, você tava sempre ali, pronta com esse amor que inunda o meu universo. Sempre.

Hoje podia ser qualquer dia. Mas não foi. Sorrindo de um jeito leve, você me contou que conseguia, aos poucos, entrar no clima do natal, enfim. Conversou comigo no café da manhã, se queixando de incômodos com coisas de família, mas não... nada tirava aquela leveza nem aquele sorriso. E com ele você me deu o meu presente de natal antecipado, seguido por um enorme abraço. Dejà vú. Mal sabia você que esse já era o maior presente que você podia me dar.

Hoje podia ser qualquer dia. Mas não foi.
Amanhã é dia de papai noel, mas é pra você que eu escrevo este texto.
Obrigado por ser quem és.

Te amo, eternamente.

sexta-feira, 27 de junho de 2008





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CONTARDO CALLIGARIS


Amores silenciosos

A gente se declara apaixonado porque está apaixonado ou pelo prazer de se apaixonar?


FAZER E RECEBER declarações de amor é quase sempre prazeroso.
O mesmo vale, aliás, para todos os sentimentos: mesmo quando dizemos a alguém, olho no olho, "Eu te odeio", o medo da brutalidade de nossas palavras não exclui uma forma selvagem de prazer.
De fato, há um prazer na própria intensidade dos sentimentos; por isso, desconfio um pouco das palavras com as quais os manifestamos.
Tomando o exemplo do amor, nunca sei se a gente se declara apaixonado porque, de fato, ama ou, então, diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar.

Simplificando, há duas grandes categorias de expressões: constatativas e performativas.
Se digo "Está chovendo", a frase pode ser verdadeira se estamos num dia de chuva ou falsa se faz sol; de qualquer forma, mentindo ou não, é uma frase que descreve, constata um fato que não depende dela.
Se digo "Eu declaro a guerra", minha declaração será legítima se eu for imperador ou será um capricho da imaginação se eu for simples cidadão; de qualquer forma, capricho ou não, é uma frase que não constata, mas produz (ou quer produzir) um fato. Se eu tiver a autoridade necessária, a guerra estará declarada porque eu disse que declarei a guerra. Minha "performance" discursiva é o próprio acontecimento do qual se trata (a declaração de guerra).

Pois bem, nunca sei se as declarações de amor são constatativas ("Digo que amo porque constato que amo") ou performativas ("Aca- bo amando à força de dizer que amo"). E isso se aplica à maioria dos sentimentos.

Recentemente, uma jovem, por quem tenho estima e carinho, confiava-me sua dor pela separação que ela estava vivendo. Ao escutá-la, eu pensava que expressar seus sentimentos devia ser, para ela, um alívio, mas que, de uma certa forma, seria melhor se ela não falasse. Por quê? Justamente, era como se a falta do namorado (de quem ela tinha se separado por várias e boas razões), a sensação de perda etc. fossem intensificadas por suas palavras, e talvez mais que intensificadas: produzidas.
É uma experiência comum: externamos nossos sentimentos para vivê-los mais intensamente - para encontrar as lágrimas que, sem isso, não jorrariam ou a alegria que talvez, sem isso, fosse menor. Nada contra: sou a favor da intensidade das experiências, mesmo das dolorosas. Mas há dois problemas.

O primeiro é que o entusiasmo com o qual expressamos nossos sentimentos pode simplificá-los. Ao declarar meu amor, por exemplo, esqueço conflitos e nuances. No entusiasmo do "te amo", deixo de lado complementos incômodos ("Te amo, assim como amo outras e outros" ou "Te amo, aqui, agora, só sob este céu") e adversativas que atrapalhariam a declaração com o peso do passado ou a urgência de sonhos nos quais o amor que declaro não se enquadra.
O segundo problema é que nossa verborragia amorosa atropela o outro. A complexidade de seus sentimentos se perde na simplificação dos nossos, e sua resposta ("Também te amo"), de repente, não vale mais nada ("Eu disse primeiro").
Por isso, no fundo, meu ideal de relação amorosa é silencioso, contido, pudico.

Para contrabalançar os romances e filmes em que o amor triunfa ao ser dito e redito, como um performativo que inventa e força o sentimento, sugiro dois extraordinários romances breves, de Alessandro Baricco, o escritor italiano que estará na Festa Literária Internacional de Parati, na próxima semana: "Seda" e "Sem Sangue" (ambos Companhia das Letras).
Nos dois, a intensidade do amor se impõe com uma extrema economia de palavras ("Sem Sangue") ou sem palavra nenhuma ("Seda"). Nos dois, o silêncio permite que o amor vingue -apesar de ele não poder ser dito ou talvez por isso mesmo.
No caso de "Seda": te amo em silêncio porque te encontro ao limite extremo de uma viagem ao fim do mundo, indissociavelmente ligada a um outro, e nem sei falar tua língua.
Você me ama em silêncio porque sou outro: uma aparição efêmera, uma ave migrante.
No caso de "Sem Sangue": te amo, e não há como falar disso porque te dei e te tirei a vida. E você me ama pelas mesmas razões pelas quais poderia e deveria querer me matar (os leitores entenderão).

Nos dois romances, a ausência da fala amorosa acaba sendo um presente que os amantes se fazem reciprocamente, uma forma extrema (e freqüentemente perdida) de respeito pela complexidade de nossos sentimentos e dos sentimentos do outro que amamos.